sexta-feira, 23 de outubro de 2009

CAÇADAS PORTUGUESAS



CAÇADAS PORTUGUESAS. Paizagens - Figuras do campo, de Zacharias d'Aça, Lisboa, 1898

via Internet Archive

1 comentários:

américo disse...

Chamo a atenção para o texto de Zacharias d'Aça que intitulei "A batalha dos modernos

Zacharias d' Aça, "Caçadas Portuguezas..."

A BATALHA DOS MODERMOS
pointer versus Navarro

pág. 172
«...
Eram esses bellos animaes, quasi todos, "pointers" inglezes, então ainda pouco conhecidos em Portugal. Pernaltos, elegantes e ardentes, tinham o craneo arredondado e proeminente, olhos grandes, cheios de fogo, ventas largas e humidas, a bôca sêca, o peito vasto, rins fortes e arqueados como os do galgo, a cauda fina e curta, as patas pequenas e nervosoas, toda a musculatura desenvolvida, e desenhando-se vigorosamente debaixo da pelagem, finissima e rara.
Raça fidalga e exotica, producto do "hound" e do navarro hespanhol - "old spanish dog" - denunciavam a sua dupla origem.
Esbeltos, rapidos nos movimentos, distanceando-se do caçador, e exp0lorando em cinco minutos uma area em que outro perdigueiro gastaria meia hora, estes cães tinham herdado a celeridade do galgo corredor, o antigo companheiro, o lebréu dos ricos senhores dos tempos feudaes, porém no "tirar a ventos" a caça, "fazendo-a" a distancias prodigiosas, na certeza das mostras, na firmeza do parar, mostravam possuir as solidas qualidades do antigo perdigueiro navarro, que em nada tinham desmerecido com o cruzamento, antes pareciam ter requintado nas suas perfeições.
Estava-se então nomais acceso da batalha entre os antigos e os modernos. Uns, velhos amadores,
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juravam ainda pelo navarro, os novos eram todos pelo "pointer". Quantos, duellos, quantas victorias, quantas derrotas!
O "pointer", aventureiro desconhecido, invadira a peninsula, pela primeira vez, na comitiva dos officiaes inglezes de Beresfor e de Wellesley, e illustrou-se com altos feitos nas planicies e encostas de Torres Vedras! Se não trazia espada, elle proprio era uma espada, tão flexivel e brilhante como uma folha de Toledo, e o seu nariz podia competir em alcance e certeza com os mais destros e experimentados "rifles" dos fuzileiros escoceses de Spencer e de Picton!
Como um meteoro este bello e veloz explorafor passou e desapareceu, mas não ficou esquecido na memoria dos nossos caçadores; e alguns,mais intelligentes, procuraram conservar nos seus canis uma parcella do sangue generoso, que tanto os maravilhara.
Tempo depois, na epoch da ossa historia, tornam a apparecer estes heroes no campo das suas proezas, e ahi travam renhida peleja com os epresentantes do passado, que eles pretendiam destronar. O velho espirito nacional oppoz-lhes o "navarro", cão de porte severo e magestoso, espaduado e possante, mas vagaroso e demorado nos movimentos - animal distincto pelas longas orelhas, que augmentavam as avantajadas dimensões da sua enorme cabeça. Grave e comedido, digno de figurar nas caçadas dos nobres e desembargadores do tempo d' elrei D. José e de D. Maria I, havia entre elle e o cão inglez a mesma differença que entre um poe-
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ma de Garrett e uma ode de Antonio Diniz - um mundo!
A caçada que tentamos descrever, foi mais um episodio d' essa longa campanha, mais um lance do encarniçado duello entre as duas raças, que só devia terminar pela derrota e completa anniquilação dos fieis companheiros dos nossos avós. Hoje o "navarro" portuguez pertence Á historia. "Requiescat in pace".»